Entrevistas de Criadores

Amigo Albino Almeida

 

Olá a todos os leitores. 

Ultimamente tenho recebido algumas mensagens de leitores questionando a minha inactividade no blogue. Deixem-me tranquilizá-los. Está inactividade tem um único responsável: As criações. Todos sabemos que é uma altura de muito trabalho, e para acrescentar tenho tido alguns problemas que me tem roubado mais tempo do que aquele que esperava, mas isso será assunto para um outro post. 

Este post é dedicado a um grande e experiente criador de canários. É conhecido no meio ornitológico pelo homem da bata branca, tem desempenhado nos últimos ano um papel importante no desenvolvimento do gloster e do GCP. Para quem ainda não sabe de quem estou a falar, apresento-vos o sr. Albino Almeida. 

 

Espero que aproveitem e desfrutem da entrevista que conta relatos e experiências de um criador que já anda nisto há mais de 30 anos. Ao sr. Albino resta-me dar os parabéns e agradecer-lhe pelo trabalho e pela partilha das suas sabedoria neste hobbie. Denota-se pelas suas palavras que é um verdadeiro aficionado deste hobbie, e que ao contrário de muitos criadores não põe entraves em "abrir o jogo". Mais criadores houvessem como o senhor Albino e a ornitologia em Portugal estaria concerteza noutro nível. 

 

 

 

 

Nome: Albino Manuel Martins de Almeida 

Morada: Av. António Sérgio nº 3 4º Letra B – Reboleira 2720 – 045 Amadora 

Contacto: albinoalmeidagloster@gmail.com 

 214998512/917270277 

 

 1. Como começou este gosto pela Canaricultura? 

O gosto pela criação de aves, começou por volta dos meus 16 anos, embora de descendência Minhota fui criado no bairro da Ajuda em Lisboa, situado junto à mata do Monsanto e da Tapada da Ajuda. A convivência com animais e aves era quase diária, assim como a existência no bairro de vários pombais, cujos donos se dedicavam à columbofilia e que eu acompanhava diariamente, razão pela qual me despertou o interresse e paixão em criar aves.

 

2. Qual ou quais foram as tuas maiores dificuldades quando iniciaste?

Quando iniciei este meu Hobby, e estando a falar de mais de 30 anos, as dificuldades eram bem maiores que as que existem actualmente, e que descrevo como exemplo: 

 - A dificuldade no acesso a informação técnica por parte dos criadores mais experientes, os quais não transmitiam nem experiencias e/ou ensinamentos, Hoje a realidade é bem mais favorável para quem se está a iniciar, por via da alteração de mentalidade que já existe num grande numero de criadores mais experientes.

 - A dificuldade em adquirir aves de alguma qualidade, só transitadas num grupo reduzido de criadores, era muito grande, Hoje qualquer iniciante tem acesso a bons exemplares, embora considere benéfico toda esta partilha, também considero que toda esta pratica está a desvirtuar um pouco o espírito que entendo ser um verdadeiro criador, pois para muitos pode-se criar a ideia que a construção de um plantel não é tão importante ou necessário, adquire-se uns bons exemplares e espera-se a ver o que dá, e que entendo ser um erro muito grande, No meu tempo de iniciante conseguir um bom exemplar dava muito trabalho, estudo e dedicação, essa a razão pela qual o meu plantel actual é composto por mais de 80% de aves nascidas no meu canaril. 

 - Na altura não existiam clubes nem federações, somente e da qual eu era sócio a Associação dos Avicultores de Portugal, que organizava a sua exposição anual e nada mais, o convívio, dialogo e troca de conhecimentos, eram feitos às sextas feiras na sede da instituição em referencia. Hoje com a criação de clubes, federações, desenvolvimento das telecomunicações e internet, assim como a quantidade de exposições que se realizam por todo o Pais, dão acesso a outro tipo de conhecimentos. 

 - Conseguir um esquema de tratamento era muito complicado, eu consegui o meu primeiro através de um amigo que se dedicava à columbofilia que me facultou uma cópia dos seus tratamentos, o qual adaptei e utilizei nas minhas aves, (canários).

3. Qual foi a raça com que começaste este hobby? 

Comecei por criar num espaço reduzido (varanda fechada), na falta de melhores condições com 6 casais de amarelos, mais tarde por volta dos meus 19 anos com a construção do meu antigo canaril, num quintal de familiares da minha namorada, hoje minha mulher, iniciei uma nova etapa a criar Mandarins, Periquitos Ingleses (Ondulados), e várias raças de canários tais como: Mosaicos vermelhos, Brancos dominantes e recessivos; Brancos e Amarelos satines e Amarelos nevados, posteriormente acabei com todas estas raças e comecei a criar o grande porte: Borders, Yorkshire, Crested e Lancashire, mantendo os periquitos e os mandarins. 

4. Quais são as variedades que neste momento crias? 

Actualmente crio Glosters, iniciei há cinco anos com 2 casais por influencia de um amigo, nessa altura ainda criava o grande porte, que estou a pensar voltar a criar pelo menos com uma raça , mantendo o mesmo nº de casais Glosters. 

 

5. Actualmente quantos casais de canários tens? 

Crio com 30 casais, embora seis sirvam em parte de madrastas, tenho condições para criar com mais, não o faço porque entendo ser meu dever e obrigação dar as melhores condições de habitabilidade às minhas aves, tenho um canaril e não pretendo ter um armazém de aves.

 

6. Qual ou quais as raças que mais te fascinam e porquê? 

Como já referi o grande porte, as razões não sei bem o porquê, talvez pelo desafio e dificuldade na reprodução de algumas delas, no entanto o Gloster é uma ave que me encanta e da qual gosto muito. 

 

7. Usas nos acasalamentos casal certos, ou utilizas um macho para várias fêmeas? Se sim quantas fêmeas metes ao mesmo macho? 

Sempre criei com casais fixos, do início ao fim do período de reprodução, nunca utilizei um macho para varias fêmeas, entendo eu ser violento para a fêmea criar sozinha as suas crias sem a ajuda do seu parceiro.

 

8. Qual o teu método de selecção de casais? Guias-te pelo aspecto exterior da ave, pelas suas características visíveis (fenótipo) ou recorres à genética (saber quem foi o pai, mãe, avós…)? 

80% do meu plantel é composto por aves nascidas no meu canaril, como tal e rigoroso como sou com os registos, sei e conheço a origem de todas elas, razão pela qual dou muita importância ao factor da Genética, o aspecto exterior (fenótipo), também pesa na minha decisão. 

 

9. Qual a mistura base que utilizas neste momento? Tanto utilizo mistura da Versele-laga como da Pet-cup, as outras sementes tais como a alpista, perrilha, aveia, trigo, feijão mongo e o próprio germinado são da Bayers e/ou da Manitoba.

 

10. Manténs essa mistura todo o ano ou varias de acordo com a época? 

Mantenho sempre a mesma dieta todo o ano. 

 

11. Que tipo de papa(s) utilizas? Como é administrada? Dias em que dás a papa? 

Já utilizei várias papas, actualmente utilizo a Albus (seca) da Canary, e a húmida da mesma marca, a preparação das minhas papas são feitas da seguinte forma: 

Período de reprodução – todos os dias 

- 100% de papa da Albus seca, Ovos cozidos ( 25 minutos ), Pêro ou bróculo triturado, Semente de xia, Aveia, Trigo e Sementes germinadas , adiciono às segundas quartas e sextas feiras levedura de cerveja ( Pavifac ), às terças e quintas feiras Quiko-med, e aos sábados Calci-lux, administrando todos os dias Bredemax, dois dias por semana adiciono Alho moído. 

 

Período da muda – um a dois dias por semana: 

- 25% de papa Albus seca, 75% de papa canary húmida, Animastrat, e Sementes germinadas. As percentagens são feitas com base na experiência adquirida, não obedecendo nem a dosagens e/ou quaisquer manual 

 

12. Vitaminas e outros aditivos alimentares, mistura-los na papa ou na água? 

Os produtos que utilizo são os seguintes: 

Tratamento de preparação para o período de reprodução: 

C.C.Ver – Complexo B – Sulfraprime – Floracholine – Pró-Hepatic e Vitamina AD3EC+K 

 

Tratamento no período da muda: 

C.C.Ver – Complexo B – Floracholine – Pró-Hepatic – Taubengold 

 

 Neste período da muda, para evitar as desagradáveis picadelas e o arrancar de penas, utilizo (Sebo de Carneiro), o qual é substituído semanalmente, prática que sempre utilizei e com bons resultados.

 

13. Qual ou quais as marcas que gostas de usar? 

Os produtos que uso são na sua generalidade da ZOOPAN e da AVIZON. 

 

14. Qual o tratamento preventivo que utilizas para os reprodutores? 

Já respondido na 12ª 

 

15. Para os parasitas, nomeadamente o piolho, o que utilizas? 

Nunca tive nem tenho problemas com parasitas, para tal os procedimentos que utilizo são os seguintes: 

- Vacino as aves duas vezes por ano com uma gota na nuca (Ivomec). 

- Limpeza semanal de todos os viveiros, com desinfecção de tabuleiros, comedouros e bebedouros. 

- Com equipamento mecânico e programador, faço 10 renovações de ar por dia de meia hora cada. Purificador de ar, a funcionar por programação em períodos alternados da renovação, 10 vezes por dia, com a mesma duração de meia hora cada. 

- Mensalmente desinfecção do canaril com “ Pulvison. “ 

 

16. Em que altura nomeadamente acasalas os canários? E desde quando tens os machos separados? 

Após o período da muda faço um estudo preliminar dos casais que pretendo para a nova época, a partir dessa altura ficam embora que provisoriamente juntos, (macho e fêmea), Quando termina o período das exposições, inicio o período de preparação tanto de produtos e/ou medicamentos, assim como no sistema de luminosidade, através de relógio (amanhecer/anoitecer), que prolongo até atingir as 14 horas diárias que utilizo na época de reprodução. Começo as criações com a colocação dos ninhos em meados do mês de Dezembro, as primeiras crias nascem por norma na segunda quinzena de Janeiro, e termino as criações no inicio do mês de Maio, nessa altura tenho todas as minhas aves nas voadeiras, não nos podemos esquecer que as nossas condições climatéricas nada tem de semelhante com as da Bélgica, Holanda, Itália e Alemanha, aí sim devido ao frio que se faz sentir nesses locais, as criações tem forçosamente de começar no mês de Março. 

 

17. Quantas posturas permites numa época de criação? 

Faço sempre duas posturas e meia, como sei que esta minha expressão suscita alguma curiosidade passo a explicar: Assumindo perder na ordem dos 50% dos ovos na primeira postura (golos), faço-o por entender e ser muito mais confortável para as fêmeas a postura com o seu ninho, ao invés de situações que conheço, estarem as fêmeas sem condições a depositar ovos do poleiro para o tabuleiro, situação que pode provocar inclusive alguns danos e vícios à fêmea. 

 

18. Normalmente separas os filhotes com quantos dias? 

Separo os filhotes aos 30 dias, no caso do grande porte separo aos 40 dias. 

19. Algum tratamento específico para acompanhar as crias no desmame? 

Não, somente a preocupação de não juntar aves de plumagem escura com clara, o que pode originar as indesejáveis picadelas, mantendo a mesma

alimentação a que estavam habituados aquando na companhia dos seus progenitores pelo menos durante 2 a 3 semanas, proporcionando condições de banho 2 a 3 vezes por semana.

20. No último ano qual a média de crias que tiveste no final da época de cria? 

As médias que tenho registo nestes últimos anos andam na ordem de 6 a 7 crias por casal. 

21. Como fazes a preparação das aves para as Exposições, isolas as aves individualmente, tens espaço para tal? 

Após a muda faço uma escolha das aves que penso levar a concurso isolando-as, tenho condições para 36 aves, disponho ainda de mais 18 gaiolas de treino, idênticas às de exposição, nas quais vou rodando aves afim de se familiarizarem com o espaço. 

22. Participas normalmente em que exposições? Nunca foi minha prioridade e/ou preocupação as exposições, o que mais gosto mesmo é do período de reprodução, no entanto por influencia e companheirismo de alguns amigos nestes últimos 3 anos participei com as minhas aves nas seguintes exposições: 

- XXII Concurso Internacional C.O.M. – S. Fernando – Cadiz – Espanha (2009) 

- One Day Show Alem Tejo (2009 – 2010 – 2011) 

- One Day Show Mealhada (2010) - Expo Aves – 5ª Vialonga (2009) 

- 65ª Exposição Ornitológica – A.A.P na Amadora (2009) 

- Avixira – Campeonato Internacional C.O.M. (2010 – 2011) 

- Exposição Nacional G.C.P – Santarém (2009 – 2010 – 2011) 

23. Quais os teus objectivos na canaricultura? 

Como já referido crio Glosters há 5 anos, o meu 1º objectivo foi atingido que foi a percentagem de aproximadamente 80% do meu plantel de reprodutores, já ter nascido no meu canaril. Preocupo-me essencialmente em conseguir bons exemplares de trabalho, esse sim o primeiro passo para bons resultados futuros. Em termos de resultados, tem sido bem animadores venho ano após ano a melhorar e muito os resultados em termos de classificação, nos eventos em que participo. 

24. Que características tem o teu canaril? (breve descrição) 

Penso ter das melhores condições que conheço, boa luz natural, ventilação e purificação de ar adequadas, a não existência de humidade, limpeza factor muito importante.

25. Qual o país que consideras mais avançado actualmente a nível da canaricultura nomeadamente a nível de canários cor, porte e canto? 

Não estou muito documentado para o fazer, no entanto pelo que vi em “ Reggio Emília“, penso a Itália estar na linha da frente, aproveito esta oportunidade para aconselhar todos os amantes deste Hobby, a visitarem este evento. 

Questões exclusivas para criadores de glosters 

26. Qual a cor no gloster que mais aprecias? 

Gosto de todos, dos verdes aos de fundo branco, no entanto os Intensos, Canelas, Variegados, Brancos e os Grizzles, são os que mais gosto e aprecio.

 

27. Quistos? Que criador de glosters nunca os teve!! Um problema que lidas facilmente ou um problema? 

Quistos, foi a principal razão pela qual comecei a criar e dar mais atenção aos “Grizzles”. Por influência de um amigo também ele apreciador destas aves comecei a criar com 1 casal, contactei de facto a existência em algumas aves a existência de penas encravadas, ou seja os ditos quistos. Por nunca ter tido tal experiência, e interessado em documentar-me sobre tal fenómeno procurei junto de alguns criadores saber quais as razões para tal, os quais na sua maioria me transmitiram que era muito frequente essas situações nesse tipo de aves, e ser inclusive em alguns casos essa a razão pela qual alguns deles já não as criavam, estes testemunhos deram-me alento para estudar e explorar este fenómeno / problema Hoje posso afirmar e provar que essa situação está totalmente debelada no meu plantel, na sua maioria composta por “ Grizzles “.  

28. Tens intensos no plantel? Consideras os intensos uma ferramenta importante para melhorar a plumagem, ou conjugas diferentes tipos de pena nevada? 

Tenho porque gosto, e considero uma boa ferramenta para trabalhar uma boa plumagem, factor que considero importante em qualquer ave seja ela de cor, canto e/ou porte. 

29. Em relação aos canelas, usas-o com alguma finalidade em especial? 

Tenho canelas porque gosto imenso, contrariando algumas teorias já crio Canelas / Canelas, e com resultados bem animadores, também considero a utilização destas aves importante para a obtenção de melhores plumagens.

30. Em qual destes parâmetros julgas ser mais complicado atingir a perfeição? Tamanho, plumagem, coroa ou corpo. 

Qualquer delas só com trabalho se consegue, no entanto o Tamanho e a Forma, tem sido os meus maiores desafios. 

 

31. A base do teu plantel resulta unicamente de aves adquiridas a criadores portugueses, ou já recorreu a aves de criadores estrangeiros? pode referir nomes? 

A base do meu plantel foi construída com aves de 4 criadores nacionais, e com algumas adquiridas em Reggio Emília no ano de 2009.

 

32. Em Portugal daquilo que conheces com qual de identificas mais? E a nível internacional. Podes referir criadores que já desistiram do hobbie ou que tenham morrido. 

Em Portugal já existem criadores de grande nível, no entanto e não querendo referenciar nenhum pelo respeito que tenho por todos, identifico-me com 5 criadores, 2 da zona sul, 2 da zona centro, e 1 da zona norte, de Itália tenho exemplares de diversos criadores mas os que mais me identifico são: Baggi Alex, Pappalardo, Costantini Mauro e Pietro Tellaroli, tenho muitas saudades de alguns criadores nacionais, autênticos mestres, com quem tive o privilégio de privar, e já desaparecidos. 

 

33. Há algum conselho que queira deixar para quem inicia este hobby nomeadamente a nível da construção do canaril, da aquisição de material (gaiolas) e de pássaros? 

Para quem tenha possibilidade, a construção do canaril deve ter três áreas distintas, e que são: 

- Área de reprodução 

- Área de muda e preparação de aves para exposição 

- Área para preparação e confecção de alimentos e /ou tratamentos 

 

 A área de reprodução quanto possível deve estar orientada a nascente, já a área de muda deve estar orientada a norte. 

Criar uma boa área de muda, é essencial pois é nessa altura que se inicia o novo período de reprodução (ano seguinte), e de preparação de aves para eventos / exposições. 

Participarem nos eventos (Exposições), escolherem bem os conselheiros, adquirirem aves em criadores de competência reconhecida e sérios, não querer obter resultados no imediato, não seguirem nem acreditar em tudo que ouvem, que com trabalho, paciência e alguma sorte, os resultados com toda a certeza serão conseguidos, acreditarem que com trabalho e persistência um dia estarão ao nível dos melhores. 

 

 

Foi muito enriquecedor responder a este teu questionário, o qual respondi como sempre o faço com a minha permanente postura que assenta na verdade, desejo-te os melhores resultados nesta nobre actividade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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